sexta-feira, 25 de maio de 2018

Controle biológico como alternativa ao consumo excessivo de agrotóxicos


Controle biológico como alternativa ao consumo excessivo de agrotóxicos. Entrevista especial com José Roberto Parra

IHU
Para reduzir a aplicação de agrotóxicos na agricultura brasileira, o Brasil precisa avançar no controle biológico das culturas agrícolas e um dos seus principais desafios consiste em criar um modelo de controle biológico que seja adequado para a agricultura brasileira, diz o engenheiro agrônomo José Roberto Postali Parra. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o pesquisador explica que o “controle biológico é um fenômeno natural que consiste na regulação de plantas e animais por agentes de mortalidade biótica”, ou seja, um tipo de produto seletivo que mata pragas, mas preserva os inimigos naturais das culturas agrícolas, evitando o desequilíbrio biológico.
Entre os principais desafios do Brasil na expansão da aplicação de controle biológicona agricultura, o primeiro deles, segundo Parra, “é a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos. Isso é algo que passou de pai para filho, o agricultor está acostumado a utilizar produtos químicos e, obviamente, utiliza muito mais controle químico do que biológico”. De acordo com o pesquisador, embora o Brasil tenha “expertise” no manejo de controle biológico, que já tem sido aplicado às culturas de cana-de-açúcar, o país dispõe de um número muito pequeno de “inimigos naturais”, que são micro e macrorganismos responsáveis pelo processo biológico. Parra informa ainda que enquanto alguns países têm cerca de 350 espécies, no Brasil o número é de aproximadamente 30. O baixo número de espécies disponíveis, explica, gera outro problema: a falta de insetos disponíveis para todos que querem aplicar esse tipo de manejo.
Defensor da aplicação desses produtos na agricultura, Parra adverte que “o controle biológico não irá substituir os produtos químicos na totalidade. Então, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situações em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- açúcar”.

José Parra | Foto: USP
José Parra | Foto: USP
José Roberto Parra é graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo – USP, mestre e doutor em Entomologia também pela USP. Atualmente é professor sênior do Departamento de Entomologia e Acarologia da ESALQ/USP. É membro da Academia Brasileira de Ciências desde 2000 e membro da Academy of Science for the Developing World – TWAS desde 2002. Recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2002 e pertence à Classe da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2010.
Confira a entrevista.
IHU On-Line — O que é o controle biológico e como ele pode contribuir para evitar os desequilíbrios biológicos causados pelo uso de agrotóxicos?
José Roberto Postali Parra — Vou explicar primeiro o que é controle biológico para depois falar sobre desequilíbrios. O controle biológico é um fenômeno natural que consiste na regulação de plantas e animais por agentes de mortalidade biótica. Então, em toda planta e em todo animal têm seus inimigos naturais. No caso da agricultura, esse equilíbrio foi quebrado pela necessidade de se ter alimentos. Assim, hoje temos grandes áreas plantadas como algodoeiro, soja etc. e, portanto, o equilíbrio natural foi quebrado. Desse modo, o objetivo do controle biológico é restituir o equilíbrio que no início existia — é um controle biológico aplicado.
O uso de inseticida gera um controle imediato das pragas, mas também é possível fazer esse controle rápido quando falamos de controle biológico aplicado, que é a liberação de grande quantidade de inimigos naturais na agricultura. Pode-se, também, aplicar um tipo de controle a longo prazo, que se chama controle biológico clássico, isto é, ao se liberar pequenas quantidades de inimigos naturais, com o tempo esses inimigos vão aumentando e geram um controle a longo prazo. Isso é seletivo porque serve só para culturas que permanecem sempre no campo, ou seja, culturas perenes ou semiperenes. Existe ainda a forma conservativa, que é uma alternativa em que se conserva o que já existe na natureza, evitando a aplicação de inseticidas. Então, existe o controle biológico aplicado, o controle biológico clássico e controle biológico conservativo. Para utilizar esse controle biológico tem que ter o mínimo de inseticidas possível. Entretanto, existem produtos seletivos, que matam as pragas e não matam os inimigos naturais. Então, é possível conciliar a utilização de produtos químicos com controle biológico desde que se usem produtos seletivos.
Em outros países existem tabelas indicando quais são esses produtos seletivos, que podem ser utilizados em determinadas espécies vegetais, não matando certos inimigos naturais que serão preservados. Isso irá reduzir a aplicação de produtos químicos. Por exemplo, os piretroides, que são uma categoria de inseticidas que matam as pragas e os inimigos naturais, o que causa problemas de desequilíbrios biológicos com explosões populacionais de insetos e ácaros. Como se causa o desequilíbrio natural? O inseticida, uma vez aplicado, vai matar a praga e os inimigos naturais, e com isso surgem os desequilíbrios. Por este motivo, em determinadas culturas, como na soja e no algodoeiro, não é recomendada a aplicação de piretroides, justamente para permitir que cresça a população de inimigos naturais. Então, os desequilíbrios são fruto dessa morte dos agentes de controle biológico, aumentando assim a população de praga, que se vê livre dos inimigos naturais.
IHU On-Line — É possível fazer o controle de pragas somente com o controle biológico sem o uso de pesticidas?
José Roberto Postali Parra — O controle biológico não irá substituir os produtos químicos na totalidade. Então, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situações em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- açúcar. No Brasil são plantados nove milhões de hectares de cana-de-açúcar e quase metade da área plantada é controlada biologicamente — a broca da cana é controlada por uma vespinha importada de Trinidad e Tobago, chamada Cotesia flavipes, e por um parasitoide de ovos chamado Trichogramma galloi. E, além disso, é utilizado um fungo chamado metarhizium anisopliae, que é usado para controlar a cigarrinha-das-raízes, que ocorre em São Paulo e em outras regiões, mas principalmente ela se tornou mais problemática quando se deixou de queimar a cana-de-açúcar. Com isso formou-se um microclima muito favorável e essa população de insetos explodiu. Para termos uma ideia, nos últimos anos a vespinha Cotesia flavipes foi liberada em 3,5 milhões de hectares, o Trichogramma galloi em 500 mil hectares e o fungo foi aplicado em áreas maiores que dois milhões de hectares.
Em outras culturas o controle biológico deveria ser incorporado em programas de manejo, e existem casos em que individualmente ele pode funcionar. Mas a intenção não é substituir o químico totalmente por controle biológico, mesmo porque isso seria impossível em função da grande área plantada no Brasil, pelo menos a curto prazo, não havendo disponibilidade de agentes de controle biológico para toda essa área plantada.
IHU On-Line — O manejo integrado com o controle biológico e agrotóxicos reduziria em que percentual o uso de agrotóxico na agricultura? 
José Roberto Postali Parra — A agricultura brasileira é muito grande, e o Brasil usa muito inseticida, sem dúvida alguma, mas existem países desenvolvidos que usam mais do que o Brasil por unidade de área, como a Holanda e o Japão — o Brasil fica na quinta posição em termos de utilização por unidade de área.
Nós somos favoráveis à racionalização do uso de inseticidas, que seria essa integração diminuindo a aplicação exagerada que se faz de forma irracional. O controle biológicopode dar controles ótimos, até superiores a 80%, como vem ocorrendo nas plantações de cana. A vantagem do controle biológico é que não traz problemas ao ambiente, à água, ao solo, ao homem, aos animais, não causa os desequilíbrios biológicos, e não há resistência a determinados produtos, como frequentemente ocorre com os químicos, e não deixa resíduos nos alimentos. Tudo isso faz com que pensemos nessa possibilidade, que é muito boa. Eu, logicamente, trabalhando no controle biológico, sou extremamente favorável à sua utilização.
Mas hoje também existem fatores que dificultam muito a utilização de químicos, por exemplo: para sintetizar um produto químico, o custo é de entre 300 e 350 milhões de dólares e o Brasil, hoje, é um grande exportador de commodities e frutas. E como os mercados exigem cada vez mais produtos sem resíduos, existe grande pressão para que se use cada vez menos produtos químicos. Além disso, no Brasil são utilizados produtos químicos que já foram banidos do mercado internacional há muitos anos, logo, eles têm que sair do mercado. Então, alguns problemas favorecem pensarmos na utilização do controle biológico.
Brasil tem expertise, tem muitos profissionais se formando nos últimos anos, as pesquisas são grandes na área de controle biológico, mas nós temos desafios, a começar pelo fato de que o Brasil faz agricultura em campos abertos. Por isso, não raro temos plantações de soja em 20 ou 50 mil hectares e até 100 mil hectares, o que é completamente diferente da forma de produzir de um produtor na Europa, como na Holanda e na Espanha, que usam muitos produtos biológicos, mas na grande maioria em casas de vegetação. Nós temos que desenvolver um modelo de controle biológicopara regiões tropicais e para isso há alguns desafios a serem vencidos. Não adianta falarmos que somos líderes em agricultura tropical — e nós somos realmente líderes —, mas para controle biológico temos que desenvolver um modelo adequado à nossa agricultura.
IHU On-Line — O que seria um modelo de controle biológico adequado para a agricultura brasileira?
José Roberto Postali Parra — Tem um grande número de desafios nesse sentido. O primeiro deles é a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos. Isso é algo que passou de pai para filho, o agricultor está acostumado a utilizar produtos químicos e, obviamente, utiliza muito mais controle químico do que biológico. O controle biológico é, ainda, algo muito pequeno, mas nos últimos anos estamos avançando mais do que o resto do mundo nesse sentido. Quando falo em últimos anos eu me refiro aos “últimos anos” mesmo. Em 2013 apareceu um inseto no país e foi registrado como Helicoverpa armigera. Ele ocorre no mundo inteiro e apareceu no Brasil Central, na região de Goiás. Não tinha controle para ele, e só oproduto biológico poderia salvar a situação. Então, tinha um vírus Trichogramma, que é um parasitoide que controla os ovos. O pessoal começou a mudar a sua visão, porém à época não havia disponibilidade de inimigos naturais para todos os produtores. Isso acontece hoje ainda, pois nós temos poucas empresas de controle biológico em relação a outros países.
Se formos olhar os trabalhos mais modernos, veremos que no mundo há grande disponibilidade de inimigos naturais, cerca de 350 espécies. No Brasil temos, incluindo macro e microrganismos, cerca de 30 agentes de controle biológico. Isso tudo é bastante limitante. Existem, comercializando hoje, 26 empresas de micro e 21 de macro — microrganismos são as coisas que não vemos, como vírus, bactérias, fungos, e os macrorganismos são aqueles controles que vemos, como um inseto controlando outro inseto, um ácaro controlando outro ácaro ou inseto. Existe hoje uma tendência maior de usar microrganismos. As multinacionais estão comprando firmas menores de controle biológico e muitas delas estão investindo em microrganismos, que são mais facilmente aceitos pelos agricultores, porque um microrganismo é como se fosse um inseticida, é misturado com água e aplicado. Um macrorganismo exige mais tecnologia, é preciso saber quando vai nascer, e ele morre logo; além disso, é preciso uma logística de armazenamento e transporte. Hoje estão usando bastante microrganismos, e podemos encontrar milhões de hectares sendo tratados com vários desses microrganismos.
No entanto, hoje um dos grandes problemas é que não existem insetos disponíveis para todos que queiram utilizá-los para controle biológico. Novas empresas estão entrando nesse mercado, entre elas a Koppert Brasil, da Holanda, que recentemente comprou uma pequena empresa que tinha sido originária do meu laboratório, a BUG Agentes Biológicos. Está acontecendo muito isto: as grandes empresas comprando as pequenas empresas. Por que, então, não avançamos tanto? Porque tem um número pequeno de empresas no Brasil com apenas sete macrorganismos e 22 microrganismos registrados, com grande número de agentes de controle biológicos aguardando registro.
O segundo desafio é em relação à amostragem, pois quando vamos controlar uma praga, é preciso saber quanto dela existe numa cultura para aplicar um produto químico, por exemplo. Como as áreas são muito grandes, é difícil saber isso no momento em que se vai aplicar o inimigo natural. Por isso estão propondo coisas novas, como o levantamento com feromônios sexuais, sensoriamento remoto, ou seja, é preciso aparatos mais sofisticados do que os que existem hoje. Um problema nesse sentido é que o Brasil é muito pobre em transferência de tecnologia; às vezes tem a tecnologia, mas ela não chega ao agricultor.
Outra dificuldade é sobre a disponibilidade do insumo; será que terá para todo mundo? Estão falando agora em uma vespinha para controlar o percevejo-marrom-da-soja; isso funciona muito bem, mas tem limites de disponibilidade. Por exemplo, temos mais de 34 milhões de hectares de soja plantados no país, e para fornecer para todo mundo, tem que se ter enormes fábricas e mais fábricas do que se tem hoje. E, muitas vezes, esse controle biológico não é trivial, demanda tecnologia, mas como o pessoal se entusiasma rapidamente, podem surgir empresas que nem sempre serão de boa qualidade.
Além disso, temos a questão da logística de armazenamento e transporte; como será liberado esse inimigo natural? Tem pessoas liberando com drones e, logicamente, se for usar um inimigo natural, temos que usar produtos seletivos e nós ainda somos muito iniciantes em termos de legislação para agentes de controle biológico. Tudo isso atrapalha um pouco, mas com o tempo a situação vai melhorando.
Sou muito esperançoso com relação à possibilidade do avanço do controle biológicoa médio e longo prazos. De todo modo, o uso do controle biológico não pode ser muito precipitado, porque se tentarmos fazer tudo de forma corrida, surgirão produtos de má qualidade e o controle biológico cairá no descrédito, que é justamente o que não queremos que aconteça. Preferimos que seu desenvolvimento seja devagar, mas com firmeza, por isso não podemos querer que isso ocorra na próxima safra; isso não acontecerá. É preciso ir mudando a mentalidade aos poucos.
IHU On-Line — Qual é a receptividade desse manejo integrado, para além do cultivo de cana-de-açúcar?
José Roberto Postali Parra — É difícil, mas o pessoal vai aderir. Isso é fruto de necessidade. Falei anteriormente que na Espanha e na Holanda se usa muito produto biológico, mas por que se usa? A Espanha é o maior produtor de pimentão do mundo e só usa o controle biológicoporque o pessoal tem extremo rigor com relação a resíduos de produtos químicos e proibiu a aplicação de produtos químicos em pimentão. Então, o produtor tem que fazer controle biológico. Mas para fazer algo assim é preciso ter disponibilidade de insumo, não adianta falar que não deve mais usar o produto químico se o produtor não tem alternativa.
Nós temos uma biodiversidade fantástica, mal explorada e pouco conhecida, mas tem muitas pessoas e empresas, tanto de macro quanto de microrganismos, interessadas nesse campo, e elas estão começando a trabalhar. Se tivermos um pouco de paciência, acredito que vai melhorar muito esse mercado e surgirão grandes oportunidades. Tem vários agentes potenciais que serão utilizados nos próximos anos. Começaram a surgir empresas e startups. Por exemplo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp financia projetos de incentivo às pequenas empresas, com isso já foram criadas 12 startups em controle biológico, e há novas empresas surgindo. Além disso, as grandes multinacionais estão adquirindo empresas. Sem dúvida precisa haver essa disponibilidade de insumo para que a coisa venha a funcionar.
IHU On-Line — Qual é a atual situação das pesquisas sobre controle biológico no país? As pesquisas são feitas em que direção? Como parcerias entre universidade, empresas e agricultores podem favorecer o desenvolvimento das pesquisas sobre controle biológico?
José Roberto Postali Parra — O grande avanço dessa área foi a criação, na década de 1960, de cursos de pós-graduação. Houve épocas em que de 20% a 25% dos pesquisadores eram formados em controle biológico. Nós temos uma massa crítica razoável e hoje já existem núcleos no Brasil que trabalham com controle biológico, todos saídos de centros mais avançados. Por exemplo, temos grupos trabalhando no Espírito Santo, no Nordeste e no Sul do país. Em São Paulo existe uma concentração maior, mas existem grupos muito importantes. No Rio Grande do Sultem grupos fortes trabalhando com controle biológico na Embrapa.
Como tudo na vida, esse projeto exige investimentos em pesquisa, e como vivemos um período ruim na economia, não há tanto investimento, não tem dinheiro, mas existem possibilidades futuras. Vejo como possibilidades o financiamento de órgãos como a Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – Embrapii, que financia um grande projeto nosso, os biocontroladores, que se referem a macro e a microrganismos. Também existem outras possibilidades via Fapesp, que está abrindo portas para que se forme um centro de controle biológico. Assim, os recursos começam a aparecer especificamente para isso. A Embrapii, a Fapesp e o CNPq estão financiando esse tipo de pesquisa e a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] também está interessada em financiar programas de controle biológico.
Nesta semana haverá uma reunião no Rio de Janeiro, no Ministério de Ciência e Tecnologia, com o governo alemão para firmar um convênio sobre controle biológico. Os recursos começam a aparecer e, onde existem recursos, os processos começam a funcionar, logicamente se forem feitos de forma correta. Eu sou professor aposentado da USP, mas continuo em atividade normal porque trabalhei a vida inteira para chegar num bom momento, e hoje nos encontramos neste bom momento. O movimento para o uso de controle biológico é mundial. A China, por exemplo, neste ano está investindo 350 milhões de dólares em sustentabilidade, então o controle biológico, em última análise, implica em sustentabilidade e “está caindo cada vez mais no gosto da população brasileira”.

(EcoDebate, 25/05/2018) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

EcoDebate - Edição 2.986 de 25 / maio / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

quarta-feira, 23 de maio de 2018

SBPC se manifesta contra Projeto de Lei que altera lei dos agrotóxicos

Embalagens vazias de agrotóxicos
Embalagens vazias de agrotóxicos. Foto: EBC
Jornal da Ciência
“Alertamos a sociedade brasileira para os efeitos potencialmente catastróficos da aprovação deste PL para a saúde pública”, enfatiza a entidade, conclamando que haja um debate mais amplo e aprofundado sobre as possíveis consequências do projeto de lei
Diante do cenário do uso de agrotóxicos no Brasil e preocupada com a desregulamentação do aparato regulatório de proteção à saúde e ao meio ambiente relacionado aos agrotóxicos no País, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgou na terça-feira (22) um manifesto contra a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 6.299/2002, conhecida como a “Lei do Veneno”, que altera a Lei dos Agrotóxicos.
“Alertamos a sociedade brasileira para os efeitos potencialmente catastróficos da aprovação deste PL para a saúde pública”, enfatiza a SBPC no documento.
Se aprovado o projeto, o termo “agrotóxico” será substituído pela expressão “produto fitossanitário e produtos de controle ambiental”. Conforme observa a SBPC, o termo agrotóxico ou pesticida é reconhecido mundialmente, e a proposta sugere a troca do termo sem nenhuma justificativa científica plausível.
Além disso, o PL prevê, entre outros pontos, que os agrotóxicos possam ser liberados pelo Ministério da Agricultura mesmo se órgãos reguladores, como Ibama e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não tiverem concluído suas análises.
Segundo o texto, o uso excessivo de agrotóxicos ameaça seriamente os ecossistemas além de representar um problema grave para a saúde. A presença desses compostos nos ecossistemas terrestres e aquáticos representa um risco para os organismos, com vários efeitos negativos já reportados e resultantes desta exposição. “Um relatório do Ministério da Saúde, de 2018, registrou 84.206 notificações de intoxicação por agrotóxico entre 2007 e 2015. A Anvisa apontou, em 2013, que 64% dos alimentos no Brasil estavam contaminados por agrotóxicos. Registre-se que, em apenas doze anos, entre 2000 e 2012, houve um aumento de 288% no uso de agrotóxicos no Brasil”.
A entidade finaliza o documento conclamando que as instituições de pesquisa, os órgãos governamentais, o Congresso Nacional, as entidades representativas dos diversos setores sociais e a sociedade brasileira como um todo para que seja realizado um debate mais amplo e aprofundado sobre as possíveis consequências deste PL, e com o tempo adequado, para que não se aprove às pressas uma legislação sobre os agrotóxicos que pode trazer consequências ainda mais graves para a saúde da população e para o meio ambiente brasileiro.
Leia abaixo o manifesto na íntegra:

Manifestação da SBPC sobre o Projeto de Lei Nº 6.299/2002

Está neste momento sendo discutida, em uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados, a aprovação do Projeto de Lei Nº 6.299/2002, relacionado aos agrotóxicos. O projeto “altera os arts 3º e 9º da Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989, que dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e afins, e dá outras providências”.
O projeto de lei traz uma proposta de alteração da Lei nº 7.802/89, restringindo a atuação dos órgãos de saúde e ambiente em todo o processo de liberação e controle dos agrotóxicos, concentrando as competências no setor da agricultura, com destaque para os seguintes pontos: a eliminação dos atuais critérios de proibição de registro de agrotóxicos descritos no § 6º do Artigo 3º da referida Lei, principalmente carcinogenicidade, mutagenicidade, teratogenicidade, distúrbios hormonais e danos ao sistema reprodutivo; a possibilidade de comercialização de produtos que ainda não tenham sido autorizados pelos órgãos de governo, mediante a criação do registro temporário e da autorização temporária. O termo agrotóxico ou pesticida é reconhecido mundialmente, porém a nova legislação proposta sugere a troca do termo agrotóxico para defensivo fitossanitário e produtos de controle ambiental, sem uma justificativa científica plausível para tal.
O uso excessivo de agrotóxicos ameaça seriamente os ecossistemas além de representar um problema grave para a saúde. A presença desses compostos nos ecossistemas terrestres e aquáticos representa um risco para os organismos, com vários efeitos negativos já reportados e resultantes desta exposição. A saúde humana é a mais afetada pelos efeitos adversos do uso de agrotóxicos. Muitas dessas substâncias têm o potencial de se acumular na corrente sanguínea, no leite materno e, principalmente, nos alimentos consumidos pela população. Um relatório do Ministério da Saúde, de 2018, registrou 84.206 notificações de intoxicação por agrotóxico entre 2007 e 2015. A Anvisa apontou, em 2013, que 64% dos alimentos no Brasil estavam contaminados por agrotóxicos. Registre-se que, em apenas doze anos, entre 2000 e 2012, houve um aumento de 288% no uso de agrotóxicos no Brasil.
A literatura científica nacional e internacional aponta que, dentre os efeitos sobre a saúde humana associados à exposição aos agrotóxicos, os mais preocupantes são as intoxicações crônicas, caracterizadas por infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, manifestada através de distúrbios cognitivos e comportamentais, e quadros de neuropatia e desregulação hormonal. Além disso, há estudos que evidenciaram os efeitos imunotóxicos, caracterizados por imunoestimulação ou imunossupressão, sendo este último fator favorável à diminuição na resistência a patógenos ou mesmo diminuição da imunovigilância, com comprometimento do combate às células neoplásicas levando a uma maior incidência de câncer.
A questão dos agrotóxicos, apesar de polêmica por envolver interesses de setores da economia como a indústria química e do agronegócio, é um exemplo importante da necessidade de serem utilizadas evidências científicas para dar suporte à elaboração de legislações e políticas públicas. Um caso clássico mundial, e emblemático, foi o livro “A Primavera Silenciosa” da pesquisadora e escritora norte-americana Rachel Carson, publicado em 1962. Carson denunciou vários efeitos negativos resultantes do uso do DDT em plantações. As suas análises foram a base para a criação de um Comitê de Consultoria Científica do Presidente dos Estados Unidos sobre a temática dos agrotóxicos, que acabou por reforçar suas conclusões, fornecendo elementos para a criação futura de órgãos como a Agência de Proteção Ambiental Americana.
Em 2015, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, uma das associações científicas afiliadas à SBPC, elaborou um dossiê de alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde (disponível no site: www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/) no qual foram reunidas evidências científicas sobre o risco que toda a população brasileira está correndo frente a medidas que intensificam o uso e a exposição a agrotóxicos no País. Além das consequências para o ambiente e para a saúde da população, o uso exagerado de agrotóxicos afeta a economia brasileira com um custo muito alto (mais de 12 bilhões de dólares por ano) uma vez que a produção de insumos agrícolas, incluindo agrotóxicos, é controlada por grandes multinacionais.
Diante do cenário do uso de agrotóxicos no Brasil e preocupada com a desregulamentação do aparato regulatório de proteção à saúde e ao meio ambiente relacionado aos agrotóxicos no Brasil, a SBPC se manifesta contra a aprovação do Projeto de Lei Nº 6.299/2002 e demais projetos apensados. Alertamos a sociedade brasileira para os efeitos potencialmente catastróficos da aprovação deste PL para a saúde pública. A nossa entidade, que está à disposição para trazer as evidências científicas que justificam sua posição, se soma às análises técnico-científicas de órgãos que já se manifestaram pela rejeição do PL como a Fiocruz, o INCA, o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho, a Defensoria Pública da União, o Conselho Nacional de Saúde, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos, o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente, a ANVISA e a ABA, que produziram notas técnicas alertando para os riscos contidos nesse Projeto de Lei. A SBPC conclama as instituições de pesquisa, os órgãos governamentais, o Congresso Nacional, as entidades representativas dos diversos setores sociais e a sociedade brasileira como um todo para que seja realizado um debate mais amplo e aprofundado sobre as possíveis consequências deste PL, e com o tempo adequado, para que não se aprove às pressas uma legislação sobre os agrotóxicos que pode trazer consequências ainda mais graves para a saúde da população e para o meio ambiente brasileiro.
Ildeu de Castro Moreira
Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

Do Jornal da Ciência/SBPC, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/05/2018

Nota da Redação: sobre o mesmo tema leia, também:


EcoDebate - Edição 2.984 de 23 / maio / 2018


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Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Estudo internacional inédito aponta risco de perda de 82% dos campos rupestres no país

UNESP
Áreas abrigam mais de 5000 espécies de plantas e um dos níveis mais altos de endemismo no mundo Imagem: Ricardo Solar
Áreas abrigam mais de 5000 espécies de plantas e um dos níveis mais altos de endemismo no mundo Imagem: Ricardo Solar
Um estudo desenvolvido em colaboração entre pesquisadores da Unesp Rio Claro, Standford University (dos EUA) e Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG), alerta para mudanças no uso do solo que podem levar à perda de 82% desses ecossistema no futuro, prejudicando o acesso à água e a segurança alimentar em escala regional.
Os campos rupestres são complexos vegetacionais antigos, datando de milhares de anos e megadiversos, que abrigam mais de 5000 espécies de plantas e um dos níveis mais altos de endemismo no mundo.
Este ecossistema ímpar ocorre em solos pobres em nutrientes e sob condições ambientais extremas, em geral nas montanhas de quartzo e ferro de Minas Gerais e Bahia. Até pouco tempo atrás, os campos rupestres foram poupados das principais intervenções humanas de agricultura e pecuária intensiva. No entanto, recentemente, estas áreas têm experimentado uma das mais extremas mudanças no uso da terra entre todos os ecossistemas brasileiros, sofrendo com políticas precárias que levam a intensas atividades de mineração, turismo descontrolado e construção de estradas mal planejadas.
A descoberta de grandes reservas minerais, a adoção de políticas de conservação ineficazes e mudanças climáticas em curso estão ameaçando esse ecossistema.
O artigo, co-autorado por pesquisadores da UFMG, Unesp de Rio Claro e Stanford University (EUA), lançam luz sobre as ameaças severas impostas pelas mudanças no uso da terra sobre os campos rupestres, modelando sua distribuição futura sob diferentes cenários de mudanças climáticas.
O estudo inédito faz uma previsão catastrófica que, se não for interrompida, levará à perda de 82% desse ecossistema no futuro, impactando os serviços ecossistêmicos em escalas regionais, incluindo água e segurança alimentar, potencialmente afetando mais de 50 milhões de pessoas no Brasil.

Da UNESP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/05/2018