quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

OS CAMINHOS DA SOJA NA AMAZÔNIA


Uma clareira no meio da mata foi feita pelos ribeirinhos do Município de Belterra, na Floresta do Tapajós, no Pará, mas é apenas uma pequena área de um campinho de futebol onde as crianças brincam ao som dos pássaros e do vento nas árvores, enquanto os pais dos pequenos coletam sementes e extraem nos arredores o leite da seringueira para produção de borracha. Não muito distante dali, outras clareiras, só que bem maiores, e com algumas castanheiras isoladas em meio a imensas plantações de soja.

As comunidades de Belterra, próximo à cidade de Santarém, no Pará, ainda desfrutam das riquezas oferecidas pela rica biodiversidade da Amazônia. As famílias às margens do rio Tapajós sobrevivem do extrativismo e da agricultura familiar, mas o desenvolvimento acelerado do agronegócio, principalmente da soja, ameaça a vida dessas comunidades e da natureza, por meio de desmatamento ilegal, grilagem de terras e violência contra os trabalhadores locais.

Em 2006, em Santarém, foi travado intenso conflito de movimentos sociais contra agricultores de soja e a multinacional Cargil, pois as plantações de soja cresciam (e ainda crescem) em ritmo acelerado na floresta amazônica. Enormes áreas foram tomadas pelo cultivo do grão disputado pelo mercado internacional.

O Brasil ê um dos principais exportadores mundiais de soja, pois teve um dos maiores crescimentos de produção da história, passando de 14 milhões de toneladas em 1990 para 39,6 milhões de toneladas em 2005, de acordo com relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de 2006.

O crescimento da monocultura da soja carece de extensas áreas desmatadas e provoca profundas transformações na paisagem florestal amazônica. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2005, a produção está concentrada principalmente em três regiões: a região que engloba os Municípios de Santarém e Belterra no Baixo Amazonas, representando 44% da produção de soja do Estado, a região dos Municípios de Paragominas, Ulianópolis e Dom Eliseu, no nordeste do Estado, com 28% da produção, e a região do Município de Santana do Araguaia, com 18% da produção.

Para o padre Edilberto Sena, da “Frente em Defesa da Amazônia”, na região de Santarém, a expansão da soja é preocupante. Ele assinala que o aumento do desmatamento no baixo-Amazonas é conseqüência da existência do porto da Cargil, inaugurado em 2003, e também da possibilidade de asfaltamento da BR 163, que liga Santarém a Cuiabá.

“A Cargil exportou dois milhões de toneladas de soja de 2003 a 2006, para Liverpol, França, Holanda e China. Os plantadores de soja mato-grossenses e gaúchos devastam a floresta, usam agro-tóxicos e expulsam os trabalhadores da agricultura familiar para a cidade”, disse Edilberto.

Explicou também que é muito difícil se pensar em soja sustentável, pois, para o mercado internacional, só compensa plantio de soja na região se forem plantados no mínimo 300 hectares do grão, e ressalta que isso “é destruir a floresta”. Acrescenta que se produtores plantassem soja em um a cinco hectares, a produção seria sustentável, mas o cultivo pequeno não compensaria o trabalho. Assim, com essas condições, quem pode investir é o grande empresário com o desmatamento de imensas áreas.

“Temos cinco grandes inimigos da Amazônia os primeiros são os madeireiros, segundo os sojeiros, terceiro as mineradoras, quarto os pecuaristas e o último é o Governo Federal”, disse o Padre.

Um dos grandes problemas contestados pelos ambientalistas, além do desmatamento e da fiscalização, é que soja produzida na Amazônia é voltada especialmente para o mercado internacional - Europa e China - pois a produção é para engordar animais em outros países. Dessa forma, não oferta empregos e concentra o capital.

O seringueiro Raimundo Costa, 68 anos, que mora a vida inteira no meio da Floresta do Tapa-jós, se mostra preocupado com a rápida destruição da sua região pelo agronegócio desenfreado. “O que a gente vê é que em torno do parque está muito desmatado, mas é com muito treinamento e incentivo que não queimamos mais a mata, e estamos atentos à questão ambiental. Esse desmatamento em torno da Flona do Tapajós está difícil pra nós conter, e não pode acontecer desse jeito. A gente também está recebendo essa poluição, o veneno; essa destruição que veio pra junto de nós.”, disse o ribeirinho em simples palavras.

O índice de desmatamento no baixo Amazonas, segundo dados do Projeto Saúde e Alegria, aumentou de 2003 para 2004 em 511% na área de influencia da BR 163, pois as terras baratas estimularam a migração de sojicultores.

Consumo

A questão da soja no bioma da Amazônia ganhou repercussão internacional, com a destruição da floresta para alimentar animais de outros países. Impulsiona, da mesma maneira, a carne no mercado internacional, que conseqüente-mente será vendida para redes de supermercados e fast foods na Europa.

Segundo relatório do Greenpeace, cerca de 95% da produção da soja distribuída pelo porto da Cargil é vendida para a União Européia, para países como Holanda, Reino Unido, Espanha e França.

O coordenador do Projeto Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, diz que o consumo excessivo de soja por outros países estimula a destruição da Amazônia e o aquecimento global, mas alerta para que a sociedade assuma uma nova atitude. “Precisamos de uma população mais consciente e bem informada sobre padrões de consumo. E o que me preocupa mais é ver o sentimento de felicidade ligado ao consumo excessivo.”

Caetano lembra também um fato ocorrido após repercussão nos meios de comunicação sobre a luta dos movimentos sociais contra a Cargil. A empresa McDonald’s suspendeu a compra de produtos derivados da soja amazônica da multinacional. O McDonald’s percebeu que seus consumidores da União Européia estavam assimilando o nome da empresa com destruição da Amazônia.

“Não sei o que é soja sustentável, mas isso não quer dizer que sou contra a soja e o agronegócio, pois sou um crítico em relação à maneira como é feito isso no bioma amazônico. Vejo que é triste e vergonhoso se desmatar floresta primária para plantar soja, pois temos muitas terras abandonadas no sul e no sudeste do Brasil”, disse Caetano.

Soja e problemas climáticos

Pesquisa realizada pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) revela que a retirada da vegetação nativa para o cultivo de soja diminui em 47,4% a precipitação na Amazônia Oriental e de 42% em áreas de pasto.

Com a retirada da floresta para a plantação de soja, o solo fica exposto à radiação solar, o que deixa a atmosfera mais quente, principalmente entre uma safra e outra, causando intensos impactos no clima regional.

Os dados revelam que o impacto não é sentido apenas na Amazônia, mas no Brasil e no mundo. Se o desmatamento atingir os 40%, a pesquisa do CPTEC projeta alterações nos padrões de vento, temperatura e umidade, na ordem de 15% a 20%, em parte da Europa e da América do Norte.

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FONTE : Dionísio Carvalho Neto, da Universidade Estadual do Piauí – UESPI.
Reportagem publicada na revista Meio Ambiente e Mudanças Climáticas na Amazônia, que reúne matérias de participantes do Laboratório Ambiental de Jornalismo promovido pela Fundação Konrad Adenauer, realizado no mês de junho, em Santarém (PA). Para ler a revista, baixe o arquivo (PDF): http://www.kas.de/wf/doc/kas_15054-544-5-30.pdf. Conheça o trabalho da Fundação em Fortaleza (http://www.sustentavel.inf.br) e em Buenos Aires (http://www.medioslatinos.com). (Envolverde/Fundação Konrad Adenauer)

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